Quem sabe a moça do piano…

Sentou-se entre o meio e a extremidade do balcão. Deitou o chapéu empoeirado logo à sua frente. Pediu um uísque, um 12 anos. Bebeu em um gole só. Por entre uma fresta nas garrafas avistou um vulto no espelho. Um homem quase irreconhecível. O rosto sujo, a barba por fazer. Sulcos na face, cabelos desgrenhados. De momento não reconheceu. Mas continuava a fitá-lo para descobrir se era amigo ou inimigo, ou apenas um estranho assustado. Sentiu-se assustado também.

Quis beber mais uma dose. O corpo estava cansado. O mundo era muito grande e a idade já não era mais tenra. Perdera as contas de todas as distâncias há muito tempo. Hoje sabia apenas sobre o dia e a noite, sobre quando faria sol ou quando iria chover. A segunda dose foi ingerida com um tanto de pausa, “melhor é sentir o sabor das coisas” pensou. Por fim uma rápida olhada ao redor e quem sabe conseguisse se lembrar se já estivera no lugar. “Os bares, na verdade, são todos iguais. Estão sempre no mesmo lugar”. Cogitou perguntar ao garçom onde estava, abandonou a ideia logo em seguida. Escurecia lá fora. Dentro, uma penumbra.

“em algum lugar ainda é dia”. Às vezes a mente fugia por certo tempo do controle. Se o corpo ajudasse, certamente procuraria uma outra luz, um outro dia. Mas hoje, agora, o corpo pedia apenas um descanso. O último gole, segurou o líquido na boca o máximo que pode para aproveitar todas as sensações possíveis. Pôs trocados sobre o balcão, ao lado do copo. Apanhou seu chapéu. O estranho o acompanhou. Acenou com um leve adeus.

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Extraído de: O livro nunca escrito.

 

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musa…

- Eu gosto de incensos.

Uma suave surpresa na voz quando ela avistou o incensário de madeira indiana na estante. Julguei ser prudente não contar para ela a verdadeira história daquele artefato, pelo menos não por enquanto. Talvez em algum outro dia, em um futuro a médio prazo, se acaso ele chegasse.

- Eu gosto de ouvir Bob Dylan quando estou sozinha em casa. O que você ouve quando está sozinho em casa?

Ela prosseguia na tarefa de reconhecimento do ambiente. Olhava, perguntava. Eu não havia respondido nada até o momento, apenas sentei-me no sofá e fiquei observando.

- Eu gosto da combinação de incensos e Bob Dylan, por isso comentei. Às vezes eu não presto muita atenção nas letras, no que ele canta ou no que quis dizer, às vezes eu só sinto a melodia entrando pelos ouvidos e dominando a mente por completo. A voz dele é hipnotizante, logo eu me perco em pensamentos e aquele aroma de bem estar que paira no ar me transporta para um lugar onde tudo está bem. É como se eu estivesse sentada em uma varanda fitando um horizonte vermelho no céu de outubro, ou então, é como se eu estivesse deitada sob a sombra de uma árvore frondosa, na grama macia entre algumas flores aqui e ali, então eu olho para algumas nuvens azuis naquele céu interminável e eu não tenho mais nenhuma pergunta para responder, eu não preciso mais fazer planos que nunca se concretizarão na verdade. De repente, o tempo não existe e eu sou jovem, e assim serei para sempre. Eu sei que estou falando besteira, desculpe.

Então ela me olha, um pouco envergonhada, percebo que sua face assume um tom rosado. Eu apenas sorrio como quem diz “não se preocupe, eu sinto o mesmo”.

Eu ouço todas as perguntas e comentários que ela faz, mas na verdade estou absorto tentando decifrar aquela imagem, aquele filme que se desenrola exatamente ali, a poucos centímetros de onde eu estou. Alguém totalmente desconhecido que passeia por meu pequeno santuário, tocando em todos os meus objetos sacros, tocando em minha vida sem que eu me importasse ou me sentisse importunado com isso. Sinto, a bem da verdade, uma agradável sensação de vitória por vê-la assim, admirando minhas conquistas, eu sei que seus olhos brilham enquanto ela passa a mão pelos livros, por alguns troféus, quando ela chega bem perto dos quadros da parede, ou quando acende a luminária sobre a escrivaninha, e eu nada faço além de observar e sorrir intimamente.

- Eu gosto dos seus livros. Não de todos esses que estão aqui. Gosto dos livros que você escreve. Eu tenho todos eles e já perdi a conta de quantas vezes já os li. Eles são maravilhosos e quando eu os leio sinto como se você estivesse escrevendo para mim, como se eu fosse o personagem principal de todas as histórias, eu me sinto parte viva e por vezes até confundo a vida real com suas histórias. São histórias ou estórias?

Naquele momento eu decifrava memórias recentes, próximas, de algumas horas antes. Eu a vi quando ela estava na fila de autógrafos, havia ainda umas três ou quatro pessoas na sua frente e eu percebi que ela estava um pouco ansiosa. Eu também fico ansioso nesses eventos, já deveria estar acostumado, mas cada pessoa que estende um exemplar de uma obra qualquer tece um comentário diferente, um tom de voz diferente, um nome diferente, alguns vem por que gostam dos livros, outros compram para presentear, outros ainda unicamente para tecer uma crítica e procurar nas entrelinhas qualquer discordância na história, sem saber que elas são colocadas lá de forma proposital para gerar mais dúvidas do que respostas. Ela insiste nas perguntas, por certo ainda não se deu conta de que eu não tenho respostas.

- Eu sempre quis saber de onde vem aquele “1949” do seu poema chamado Neve.

- 1984. – Respondo.

Ela então dirige o olhar para o livro de George Orwell que estava guardado no armário com portas de vidro. É lá onde guardo as maiores relíquias, as coisas que realmente fizeram a vida valer a pena. É lá que guardo também o primeiro exemplar da cada um dos meus livros impressos. São como filhos. Ela tem então novamente um olhar de urgência, a urgência e o êxtase de quem desbrava um mundo totalmente desconhecido, sem no entanto sentir medo, mas sim, fascínio. Eu sei que ela já leu um bom número dos grandes clássicos, ela havia me dito isso no caminho, talvez tentando provar que dominava a arte da leitura, ou então querendo fazer uma espécie de prova comigo, mas a maneira como se dirigiu para a frente do velho armário e ficou a observar aqueles exemplares de livros já um tanto quanto depreciados pelo manuseio impôs certo deslumbramento em seu olhar. Ela estava entendendo de onde brotavam a maioria das histórias, ou estórias. O armário estava cheio de segredos, era uma vida inteira que lá repousava, mansamente, mas a ponto de explodir como um vulcão há muito adormecido. Bastava que ela girasse a chave. Eu nada faria para impedir.

Após conceder-lhe o autógrafo ela permaneceu perambulando pela livraria. Não sei se estava procurando realmente algo, pois no fim das contas levou consigo apenas o exemplar autografado de meu último livro. Aquela era a última noite de autógrafos, eu já estava um pouco cansado das viagens, afinal de contas foram seis meses na estrada praticamente sem parar. Por opção minha, deixei a última sessão para ser realizada na minha cidade, seria o encerramento com chave de ouro nessa cidade tão acolhedora e inspiradora, e após terminar eu voltaria para o meu apartamento e tudo seria descanso por longos e intermináveis dias. Ela não disse nada, apenas estendeu-me o livro que segurava junto ao peito como quem carrega um objeto de inestimável valor. Eu perguntei o seu nome. Carolina – disse ela com uma hesitação eufórica na voz. Estranhamente senti vontade de escrever para ela algo mais do que aquele velho clichê de agradecimento impessoal, quis escrever o quanto me senti feliz por saber que uma pessoa tão jovem desprendeu um tempo precioso de sua vida apenas para aguardar um autógrafo em um livro de papel. Após assinar, devolvi-lhe o exemplar fitando aqueles olhos castanhos com certa comoção.

Era tarde, após a última assinatura, severamente exausto, dirigi-me para o pequeno balcão da cafeteria que dividia espaço com o resto da loja. Sentei-me e pedi o expresso duplo, sem leite, já tradicional. Restavam somente algumas poucas pessoas ainda no ambiente. A maioria já no caixa. Eu disse ao atendente o quanto estava satisfeito pela noite, que não poderia ter esperado noite melhor para findar esse ciclo de lançamento, que o lugar estava ótimo e a organização perfeita. Precisava agradecer ainda ao dono da livraria antes de ir embora, assim que ele terminasse de atender seus clientes e antes que começasse a contabilizar os lucros da noite. Dou uma última corrida de olhos no interior da loja, talvez procurando algum conhecido que quisesse compartilhar o café e alguns cinco minutos de conversa. Ela tentava se esconder entre as prateleiras e folheava coisas a esmo, certamente não sabia o que estava buscando porque certamente não buscava nada.

- Então a grande maioria das coisas sobre as quais você escreve são reais. – senti um misto de indagação e surpresa na frase, sem conseguir definir se ela fazia uma pergunta ou exclamava uma nova descoberta. – É tudo verdade! Quer dizer, você tem muitas coisas aqui sobre as quais escreveu. As viagens, as coleções, as pessoas que você descreve, elas estão aqui, estão todas aqui. Exceto uma. Está faltando uma! Está faltando…

Novamente eu vejo aquela urgente angústia tomar conta de seu rosto, como há poucas horas atrás, quando finalmente nos encontramos na mesma linha de visão por alguns segundos, suficientes para que eu pudesse entender  ou criar um entendimento que me agradasse para então levantar-me e ir em sua direção. Imagino que ela tenha ficado um tanto quanto constrangida por eu tê-la encontrado junto à sessão de livros eróticos, mas no fundo ela sabia que eu não ligaria para tal detalhe.

Sou levado a crer que a noite foi mais cansativa do que eu havia imaginado inicialmente, e que somada a todas as viagens, fusos horários, hotéis ruins, provocou esgotamento mental tão grande ao ponto de eu não mais distinguir realidade de imaginação ou delírio. Não havia nenhuma bebida alcoólica no café, não desta vez. Eu não sei explicar, mas havia algo de tão real naquela imagem que já não me era possível atestar se estava ainda no mesmo lugar, no balcão, tomando aquele café que havia pedido, ou se há muito estava adormecido no sofá marrom da sala a sonhar. Mas havia algo de tão real no vestido azul que ela usava, ele era exatamente como eu havia descrito anos atrás, ela era a personificação daquela personagem tão presente nos meus sonhos e na minha imaginação, ela estava vestida exatamente como a personagem, estava perfeita, o vestido azul com bolinhas brancas, a meia calça preta, as longas botas de salto alto, pretas e brilhantes, uma pequena jaqueta para proteger os braços do frio do outono que estava nascendo. Os volumosos cabelos negros que ela mexia, por vezes, nervosamente, tentando se ocultar. Aquele olhar carente, desejoso, inconstante, insistente, inebriantes olhos castanhos. O mesmo sorriso, contido, nos lábios carnudos e rosados. As unhas vermelhas tão imponentes naquelas mãos pequeninas e harmoniosas. Ela tocava o vidro com a mesma ânsia incurável que não me deixava impedi-la de entrar.

Ela era, ali, e para todo o sempre, para o passado e para o futuro, a união de todos os anseios e de todas as vontades. Eu desejei que o tempo parasse, mas que não parasse ela de me conhecer.

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(Hans Cristian Koch.
Francisco Beltrão/PR. 23/05/2011. Segunda-feira).

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café amargo da segunda-feira…

Serviu uma caneca do café quente que acabara de sair da cafeteira. Uma fatia húngara. Sentou-se na pequena mesa no canto da cozinha. Aquilo era uma jantar, o seu jantar da segunda-feira. Era segunda-feira, ainda segunda-feira. Apesar das duas colheres de sopa de açucar, o café desceu amargo. Sobremaneira.

Era a parte da segunda-feira que mais odiava. Era a hora em que finalmente se dava conta de que a magia havia acabado. As fatias húngaras, muito apreciadas, estavam com gosto de final de semana, com gosto de pão dormido, e era algo que o deixava deveras desgostoso pois sempre ficava ansioso por chegar em casa e deliciar-se com a iguaria. O gosto insosso o deixou muito desapontado, foi como uma punhalada pelas costas, mas de qualquer forma teve que comer imaginando qualquer outra sensação.

A cozinha era apertada, foi preciso uma grande engenhosidade para dispor os moveis e eletros naquele pequeno espaço. Só era permitido que duas pessoas sentassem à mesa, mas isso não importava e no máximo significava que sempre teria outro lugar para sentar quando enjoasse de onde estava.

Comeu pensando nas coisas que teria que fazer ainda naquela noite, noite fria. O outono havia chegado para ficar, a cidade cinza lá fora estava maravilhosa, estava vestida com a névoa instigante e as luzes opacas davam um ar de sobriedade a toda uma existência momentânea. Queria muito estar do outro lado da parede naquele instante. Todas as lutas poderiam cessar no exato minuto em que fotografasse a singularidade da meia luz novamente. Os outonos eram sempre iguais, mas também eram diferentes a cada ano mesmo sendo iguais.

Largou o prato e a caneca sobre a pia ocupando o último local vago sobre ela. Todas as louças do domingo, do sábado, estavam ali. Os finais de semana são sempre assim, como os sonhos que se vão, eles deixam um rastro, deixam pedaços de si por toda a casa, para que não sejam nunca esquecidos. Mas eles não se importam com quem fica, somente desejam que alguém fique e lembre-se deles. Somente querem que alguém fique para limpar toda a bagunça, para colocar tudo de volta em seu lugar, para dar brilho às coisas velhas todas as manhãs. Por a roupa para lavar, limpar os móveis, ajeitar as almofadas, alinhar os porta-retratos, deixar o capacho livre ao lado da porta principal para que fique totalmente à disposição das pesadas botas sujas quando estas voltarem. Quando elas voltarem. Se elas voltarem.

Pensar, pensar. Tudo são lembranças e músicas velhas. Qual o próximo passo para a noite, chamar a nostalgia ou a melancolia? Tantos livros na estante para ler, tanto trabalho, tantas urgências da vida real e o que mais queria era trancá-las em uma caixa escura e deixá-las lá mesmo. Que ficassem lá até que o mundo não fosse mais o mundo, não como ele é. Odiava as perguntas que era obrigado a fazer. Elas nunca tinham resposta. Elas nunca tinham a resposta certa. Ele nunca tinha as respostas certas. Nem ao menos tinha uma resposta. Talvez ligar a televisão ajudasse a fugir de si mesmo, por alguns instantes que fosse. Mas ali, ao lado do controle remoto, estavam as almofadas, as listradas, as de uma cor só. As almofadas trazidas de longe e que já não eram mais conforto. Nada mais era conforto. Nada mais era abrigo.

Culpado sentiu-se por não ter colocado uma dose de bebida no café. Um pouco de calma certamente ela traria. Independentemente das conseqüências que poderia ocasionar ao resto de sua vida, afinal de contas, queria tirar logo aquele blazer, rasgar a camisa listrada de botões e manga longa, queria pular pela janela e entregar-se à noite que o aguardava lá fora, e assim toda a existência dentro do próximo segundo faria sentido e tudo o mais teria sido em vão. Mas não importaria, pois ele estaria lá, no deleite, no abraço fraternal da noite turva e fria.

Eram sempre as segundas-feiras, sempre elas que chegavam para lembrar que não havia mais o menor desejo, mas mesmo assim imperavam as vontades desvairadas contidas pela chave imponente na porta, simbologia de um anátema havido nos tempos da inocência. Maldita hora em que teve vontade de morar nas terras frias e montanhosas, aquelas onde as folhas no chão são mais lindas e perfeitas do que quando em vida. O lago cheio delas é um convite aos devaneios.

O relógio marcava 22:00. Deveria estar começando. Sempre começava a essa hora.

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(Hans Cristian Koch.
Francisco Beltrão/PR. 23/05/2011. Segunda-feira.)

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a face intocada…

Quando ela era criança, as pessoas diziam que tinha o rosto de uma boneca. Uma linda boneca de porcelana. A pele clara contrastava com os cabelos escuros e os olhos castanhos.

Com o tempo, foi crescendo com a naturalidade que a vida impunha. Sua beleza, no entanto, parecia desabrochar mais rapidamente do que o desejado. O rosto de boneca de outrora foi se transformando em rosto de modelo. Constantemente era comparada com uma modelo dessas de revista famosa, o corpo magro e bem definido, a perfeita simetria e proporcionalidade ideal.

Pude comprovar a veracidade desses relatos que volta e meia ela fazia, pois sempre eram acompanhados por fotos e mais fotos que ela mostrava como um troféu. Mas ela tinha realmente um diferencial: não precisava fazer o mínimo esforço para que suas fotos ficassem lindas, dignas de terem sido tiradas pelos melhores fotógrafos, com as melhores câmeras, e sem a necessidade de correções com o uso da tecnologia. Sua beleza era nata e era isso que a tornava especial.

Fotos sorrindo, ou com cara de poucos amigos, com olhar direto ou vagando em pensamento. Somente a face, meio corpo, corpo inteiro. De frente, de perfil, enfim, era um talento seu, somente seu.

Nós nos conhecemos em meados de 2002, se não me engano era março. Apesar da beleza e do talento, ela trabalhava servindo café e tortas em uma lanchonete. Com veemência eu acredito que o movimento do estabelecimento devia-se em mais da metade à presença dela. Sempre sorridente. Ela ria de forma encantadoramente espontânea até mesmo de minhas piadas sem graça.

Eu ia quase todos os dias tomar café após o trabalho. Além do vício, o outro motivo que me levava até lá era a vontade de olhar para ela por alguns instantes. Às vezes trocávamos algumas palavras sobre trabalho, sobre o tempo, sobre o final de semana que estava chegando. Por outras, ela apenas perguntava o que eu desejava, apesar de saber exatamente o que eu iria pedir, e nesses dias, nos dias em que não conversávamos muito, eu prolongava o máximo possível a permanência por lá somente para ficar admirando-a na ânsia de que ela se aproximasse e fizesse uma pergunta qualquer, ou então abrisse espaço para que eu lhe perguntasse algo. Eram, estes últimos, dias de muito café e muitos goles de café frio.

Eu sentia um certo ciúme das pessoas que conversavam com ela. Era como se ela tivesse que voltar sua atenção totalmente para mim enquanto eu estivesse por lá, e quando eu não estava, era como se o lugar não existisse, pois eu evitava pensar, e evitava pensar nela para não enveredar por um caminho de pensamentos incontroláveis e sem sentido.

Alguns meses se passaram assim, na rotina da visita e dos cafés diários. Eu queria muito saber mais sobre ela, sabia apenas o seu nome e o seu horário de trabalho. Mas queria mais, queria saber onde morava, o que fazia antes e depois do trabalho, quantos anos tinha, o que esperava do futuro, por que trabalhava em uma lanchonete quando poderia figurar nos grandes outdoors espalhados pela cidade, enfim, tantas perguntas e quase nenhuma coragem para dar um passo na direção de concretizar meus questionamentos. Na verdade, convidá-la para um café poderia soar de forma muito sarcástica e tão nervoso sempre estava eu que não conseguia pensar em outra abordagem.

Enfim, num final de tarde de outono, ao pagar a conta e sair deixei um papel sobre o balcão dizendo rapidamente que era para ela. Ela não entendeu prontamente, fato atestado pelo olhar confuso que ela lançou sobre o pequeno pedaço de papel e depois para mim, que já vestia o casaco e ia levantando.

Eu havia escrito no papel o número do meu telefone e uma pequena mensagem que dizia “se for de seu interesse, ligue”. Foi o melhor que consegui fazer e confesso que tive mais desesperanças do que efetivamente imaginei lograr sucesso na empreitada. Mas nem bem cheguei ao estacionamento e o telefone tocou. Não atendi. Apenas sorri como uma criança ao ganhar o tão esperado presente de natal.

Após algumas horas retornei a ligação. Sem o peso da responsabilidade do labor e sem a minha angústia e desassossego a conversa fluiu de forma muito agradável. Acabamos nos encontrando algumas vezes, não para um café, é claro, mas para jantares, filmes regados com muita pipoca, ou apenas para conversar olhando para o lago da cidade iluminado nas noites frias do outono que já havia se transformado em inverno. Apesar de breve, foi um relacionamento intenso, a ponto de gerar ciúmes e carências, que somente eram acalmadas por visitas inesperadas e longas noites de carícias.

Eu obtive a maioria das respostas que eu queria, inclusive a tão perturbadora pergunta sobre seu futuro. Descobri que apesar do amplo horizonte que ela podia avistar, do imenso território inexplorado que estava à sua espera, ela desejava apenas uma vida simples, uma vida de sonhos talvez. Confesso ter ficado um pouco desapontado com essa aceitação que ela carregava, mas sei que ela tinha os motivos pessoais suficientemente válidos para isso. Foi mais ou menos nessa época que as ligações começaram a cessar, os encontros foram ficando cada vez mais raros. Eu estava com novos projetos e estava viajando mais do que o normal, fato que me obrigou a quebrar a rotina de cafés no final da tarde. Quando, após certo tempo, resolvi tentar um novo contato, acabei por descobrir que ela havia conhecido uma pessoa legal, que as coisas estavam indo bem e que pensavam em casar, construir uma pequena casa, talvez terminar a faculdade antes de ter os filhos. Enfim, a vida simples que ela desejava e que a fazia feliz. Eu apenas acreditava, e aceitava.

Encontrá-la novamente depois de alguns anos foi, no mínimo, incrivelmente surpreendente. Era a tarde de um sábado, eu estava distraído, lia um livro à sombra de uma árvore naquele mesmo lago de outrora e havia desviado o olhar da leitura para imaginar uma cena há pouco lida quando ela apareceu. Eu reconheceria aquele sorriso à milhas de distância. Ela ainda tinha o mesmo jeito de andar, o mesmo corte de cabelo. Veio andando em minha direção e ao chegar próximo de onde eu estava usou o mesmo velho cumprimento de antigamente: – Oi, guri! Como está? – sorrimos. Nos abraçamos fortemente por longos segundos. Sentamos. Conversamos por algumas horas. Havia muita coisa para ser dita, muitos fatos e histórias, boas, ruins, engraçadas, tristes. Lembranças, estórias.

Entre os detalhes que, logicamente deveriam presentes dado o contexto, percebi que ela não usava nenhum anel no dedo anelar em nenhuma das mãos, mas não tínhamos até então tocado nos assuntos sobre relacionamentos a não ser o que nós mesmos vivemos naquela época fria de 2002. No fundo eu sabia que se perguntasse a ela algo do gênero, após ela dar a resposta e contar suas histórias, iria devolver a mesma pergunta, iria me obrigar a mexer em lembranças que tentava com muito esforço esconder, esquecer, apagar. Preferi acreditar que ela se esquecera de colocar o anel no dedo antes de sair pois era zelosa e não corria riscos de estragá-lo com detergente para louças, por exemplo, por isso tinha tirado, ou então não gostava de caminhar com o sol refletindo a todo o instante no dourado brilhante.

Mas o temido momento chegou. Naqueles instantes em que as novidades todas parecem ter acabado e impera o silêncio por alguns segundos. Ela então desviou o olhar para o nada, respirou fundo. Suspirou. Um suspiro pesado. Quando seu olhar voltou para a realidade, percebi que estava pesado, urgente por algo que não consegui decifrar. Ela mostrou-me então uma pequena cicatriz em seu pulso, escondida sob uma pulseira colorida. Novamente não entendi. Perguntei então o que havia ocorrido. O que se seguiu a partir dali foi um relato perturbador. Estar viva naquele momento, sentar-se à beira do lago que tanto gostava, reencontrar um velho amigo, tudo era uma conquista sem tamanho. Ela praticamente renascera após o grave acidente que vitimou fatalmente o seu noivo. Eu não sabia se a interrompia, se deixava que ela adentrasse cada vez mais nos detalhes, no corpo quebrado sobre o asfalto, no olhar sobre o outro mundo, no fato de ter voltado, nas inúmeras cirurgias, nas cicatrizes que ainda ficaram por seus braços e pernas mesmo após muitas horas de correções. Porém, a perplexidade tomou conta de mim quando finalmente dei-me conta de que, apesar de todas as marcas que ela carregava pelo corpo, sua face estava perfeita, imaculada, sem arranhões, ou cicatrizes. Nada, absolutamente nada, como se o tempo tivesse parado desde a última vez que a vi na escada, na despedida.

Estava me sentindo culpado. Duplamente. Culpado por não ter perguntado nada. Culpado por tê-la deixado tocar no assunto. Culpado por saber disso só agora, agora que ela já estava bem. Culpado por pensar que poderia nunca mais vê-la e que estar ali, naquele fim de tarde ao seu lado, era uma benção. Uma benção que talvez eu não merecesse, apesar de estar acontecendo, ser real. Culpado por não saber o que dizer, não saber se era sensato e humano questioná-la sobre a falta que sentia de seu noivo, e se realmente sentia falta. Por um minuto desejei que aquilo tudo fosse mentira, que não havia distância, nem tempo, nem separação, nem mortes, apenas o reencontro. Apenas um encontro de quem no dia anterior esteve junto.

Confesso que tive vontade de beijá-la como nunca antes beijei. Como uma forma de agradecimento por ela ainda estar viva, talvez, apesar de que não coube a ela tal decisão. Agradecer por ela existir naquele momento. Agradecer por ela, novamente, ter cruzado o meu caminho.

O sol ia se pondo atrás de nós. Reflexos multicoloridos no lago à nossa frente. Alguns poucos transeuntes despercebidos com seus fones de ouvido e suas conversas triviais. Ela toma minha atenção novamente: – Não foi como você. Nunca foi tão bom como com você.

E lá estávamos nós: ela com as cicatrizes na pele, eu com as cicatrizes na alma.

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um mar, um céu…

- Por quê? Quer mesmo saber por que eu te odeio?

- É… Não…

- Eu te odeio por todas as madrugadas em claro que passei imaginando onde estava seu corpo a brincar de escárnio com meus amores, quando eu gélida tremia em efusivos pensamentos que tentavam decifrar, mesmo não querendo do fundo da alma aceitar, o que te levava a irromper em fugas mortais nos momentos em que o mundo lançava todas suas pedras contra mim. Eu te odeio por todas as cartas de amor que eu escrevi e deixei sob sua porta ou sobre o travesseiro e que fechadas permaneceram até que a brevidade de um suspiro molestado trouxesse um movimento para rasgar o perfume do papel, para rasgar minha carne vermelha e usar-me em sacrifício pagão, para jogar do alto de um precipício o amor devoto que em cândidos toques em tua face eu espalhava.

- Você não entende, nada disso é verdade. Eu…

- Nada é verdade! Nunca foi verdade! Você sempre foi um poço de mentiras e humilhações com toda a sua aura de superioridade enquanto eu, eu rastejava no chão em que você pisava atrás de migalhas de um falso amor. Um amor de mentira. Mentiras de amor, somente isso o que você proferia mesmo nos momentos de maior intimidade. A intimidade que você pediu-me em carências afetivas e que eu entreguei sem medidas, sem medir esforços, sem ao menos por um segundo parar para pensar se você merecia uma gota sequer de meu suor, quem dirá merecer o sangue que derramei para te salvar. Não foram poucas as vezes em que esperei um abraço sincero para atenuar a tempestade que assolava o meu viver. Não foram poucas as vezes em que esperei-te adentrar pela porta da sala sem me importar que você largasse o casaco sobre o sofá, desde que seu segundo feito fosse pelo menos olhar para mim e dizer “oi, como está?”. Eu não me importava com suas botas velhas e sujas até o momento em que você as usou para pisotear o nosso jardim, o jardim que cultivei com o mesmo carinho de uma mãe a cuidar de um filho, mas para você nada disso fazia sentido, nada fez sentido, e de todas as pétalas coloridas e brilhantes sobrou somente o marrom de seu desafeto e o cinza de meu olhar combalido.

- Deixe me explicar, por favor. Você precisa entender, eu tentei, eu juro que tentei. Nada foi em vão.

- Já chega! Essa vida acabou…

22 horas…

(Francisco Beltrão/PR. Quarta-feira, 13 de abril de 2011).

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o velho assassino em ação…

Chovia no fim de tarde da primeira segunda-feira do mês de abril. No trajeto entre o prédio da empresa e o estacionamento eu havia molhado os sapatos, parte das calças e dos braços, o que me deixou um pouco nervoso. A secura do automóvel, no entanto, acolheu-me confortavelmente e poucos segundos depois eu acionava o botão para ligar o tocador de CDs. Coincidência ou não, a música que começou a tocar era “Riders on the storm”.  Fiquei imóvel durante os dois primeiros minutos da música, a qual eu considero como uma obra prima da criação humana, até por fim girar a chave na ignição, manobrar o carro e tomar o rumo da rua.

O vai e vem do limpador de pára-brisas é hipnotizante, acompanhando a trilha sonora perfeita para o encerramento daquela tarde. Eu preciso dirigir por algumas quadras diversas do meu trajeto usual para encontrar uma grande amiga que não vejo há algumas semanas. Mecanicamente vou acelerando, trocando as marchas, parando nos sinais, ligando a seta alguns metros antes das esquinas para evitar qualquer intempérie tão comum na cidade nos dias de chuva. Os pensamentos acompanhando a melodia que toca nos dois alto-falantes dianteiros, aumento um pouco mais o volume e o mundo ao redor parece sumir. Livre, em uma estrada sem curvas, sem solavancos, o vento nos cabelos, uma companheira de viagem que talvez divida as mesmas sensações, que mesmo por trás dos óculos escuros fita-me incessantemente, e ao invés de uma chuva cadenciada, um sol brilhante no céu de novembro.

A direção do carro azul na estrada perdida é detalhe sem grande importância no momento. Não há outros assassinos espreitando.

Chego ao local marcado, avisto-a tentando esconder-se sob a marquise para se proteger mas o vento traiçoeiro arremessa, como por brincadeira, alguns pingos de água contra sua roupa. Ela usa o costumeiro uniforme de trabalho, a calça preta justa que envolve as coxas grossas, a blusa branca que, após molhada, torna-se transparente em algumas partes de seu tronco, tornando visível o piercing que ela usava no umbigo e que eu desconhecia até o momento. Insinua um breve momento de sua lingerie branca com bolinhas pretas.

Ela senta-se aliviada, vira seu rosto para mim. Os cabelos negros estão um pouco molhados e escorrem por sua face, agarrados, alguns fios. Os olhos castanhos exprimem certa gratidão por tê-la libertado daquela espera angustiante e incômoda. O sorriso apaixonante no rosto aproxima-se do lado direito de minha face quando então é substituído, momentaneamente, pelo apertar de lábios em um afetuoso beijo que ela desprende sem o menor sentimento de culpa ou timidez. Somos velhos amigos. Somos grandes amigos. Somos os melhores amigos.

Prontamente eu pergunto: o que acha dos dias de sol?

 

(Francisco Beltrão/PR. Segunda-feira, 04 de abril de 2011).

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Extraído de: O livro nunca escrito.

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Confidências…

- Você não faria isso.

Os olhos castanhos amedrontadores disparavam com fúria palavras de ordem para que eu afastasse a tola idéia da cabeça.

- E por que eu não faria? – Perguntei, tentando demonstrar calma e controle sobre a situação.

- Porque você não seria correspondido. – E agora ela me fitava como um leão esperando o momento certo para atacar sua presa. Qualquer movimento em falso e seria o meu fim. Precisava pensar rápido na próxima frase a ser dita para manter a conversa até que conseguisse contornar a situação.

Abaixo os olhos buscando ganhar tempo, movo a mão vagarosamente em direção à garrafa de água ainda cheia sobre o balcão. Giro lentamente a tampa mas não bebo, não estava com sede, a água foi apenas um pretexto para ocupar o espaço vazio ao lado dela. Ela estava quase na extremidade lateral do balcão, próxima à parede, local que permitia uma visão privilegiada do bar como um todo. Os dois braços apoiados sobre a madeira rústica formando um semicírculo seguro onde mantinha a bolsa e seu Dry Martini a salvo de qualquer estranho indesejável. Trocava palavras com o garçom e imaginei que fossem velhos amigos, e apenas isso. Restava, entre ela e a parede, um pequeno lugar vago onde tive, de algum modo, que me acomodar.

Dirijo o olhar novamente para ela. Escondida entre os longos e volumosos cabelos negros uma face radiante. Ficava linda mesmo demonstrando certo desconforto havido após o comentário que julgou desagradável. Os lábios, levemente pintados com uma cor rosa, quanto mais cerrados mais convidativos ficavam e isso prejudicava minha capacidade de raciocinar. Foi a vez de ela desviar o olhar para um canto qualquer do bar e já não me importava mais a música que tocava ou as pessoas que espreitavam ansiosas, quase tanto quanto eu.

Não consigo precisar o tempo do silêncio. Segundos, minutos talvez. A questão é que eu havia planejado minuciosamente aquele encontro que pareceria casual. Todas as frases, os olhares permeando um anseio comum, o desvio proposital e a respiração nervosa que lançariam ao ar a deixa para que nossas mãos se encontrassem selando o acordo do desejo desvelado.

Ela volta o olhar para minha figura assustada. Eu que planejara todo o transcorrer tranquilo da história agora buscava desesperadamente formular uma junção de palavras com lógica suficiente para apaziguar a situação que se formara. Sinto a garganta seca pelo nervosismo, o mesmo nervosismo que a leva a mexer desordenadamente a alça da bolsa azul. Azul também era a roupa que usava. Pela primeira vez então eu prestei atenção em suas mãos, eram bonitas, pequenas, harmoniosas, as unhas feitas com perfeição e coloridas com um vermelho imponente.

Ela me olha com urgência, com a urgência que emana de minha tão contraditória escolha das palavras, com a urgência que dissolve os ponteiros do relógio clamando um amanhecer. Eu desejava estar acordando já ao seu lado em um domingo qualquer no distante futuro. No futuro, quando essa mudez sentimental seria apenas um fraco riso no fundo da memória.

Não tive tempo para dizer mais nada…

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Quilombo/SC. 31/03/2011.

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Extraído de: O livro nunca escrito.

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