Quando ela era criança, as pessoas diziam que tinha o rosto de uma boneca. Uma linda boneca de porcelana. A pele clara contrastava com os cabelos escuros e os olhos castanhos.
Com o tempo, foi crescendo com a naturalidade que a vida impunha. Sua beleza, no entanto, parecia desabrochar mais rapidamente do que o desejado. O rosto de boneca de outrora foi se transformando em rosto de modelo. Constantemente era comparada com uma modelo dessas de revista famosa, o corpo magro e bem definido, a perfeita simetria e proporcionalidade ideal.
Pude comprovar a veracidade desses relatos que volta e meia ela fazia, pois sempre eram acompanhados por fotos e mais fotos que ela mostrava como um troféu. Mas ela tinha realmente um diferencial: não precisava fazer o mínimo esforço para que suas fotos ficassem lindas, dignas de terem sido tiradas pelos melhores fotógrafos, com as melhores câmeras, e sem a necessidade de correções com o uso da tecnologia. Sua beleza era nata e era isso que a tornava especial.
Fotos sorrindo, ou com cara de poucos amigos, com olhar direto ou vagando em pensamento. Somente a face, meio corpo, corpo inteiro. De frente, de perfil, enfim, era um talento seu, somente seu.
Nós nos conhecemos em meados de 2002, se não me engano era março. Apesar da beleza e do talento, ela trabalhava servindo café e tortas em uma lanchonete. Com veemência eu acredito que o movimento do estabelecimento devia-se em mais da metade à presença dela. Sempre sorridente. Ela ria de forma encantadoramente espontânea até mesmo de minhas piadas sem graça.
Eu ia quase todos os dias tomar café após o trabalho. Além do vício, o outro motivo que me levava até lá era a vontade de olhar para ela por alguns instantes. Às vezes trocávamos algumas palavras sobre trabalho, sobre o tempo, sobre o final de semana que estava chegando. Por outras, ela apenas perguntava o que eu desejava, apesar de saber exatamente o que eu iria pedir, e nesses dias, nos dias em que não conversávamos muito, eu prolongava o máximo possível a permanência por lá somente para ficar admirando-a na ânsia de que ela se aproximasse e fizesse uma pergunta qualquer, ou então abrisse espaço para que eu lhe perguntasse algo. Eram, estes últimos, dias de muito café e muitos goles de café frio.
Eu sentia um certo ciúme das pessoas que conversavam com ela. Era como se ela tivesse que voltar sua atenção totalmente para mim enquanto eu estivesse por lá, e quando eu não estava, era como se o lugar não existisse, pois eu evitava pensar, e evitava pensar nela para não enveredar por um caminho de pensamentos incontroláveis e sem sentido.
Alguns meses se passaram assim, na rotina da visita e dos cafés diários. Eu queria muito saber mais sobre ela, sabia apenas o seu nome e o seu horário de trabalho. Mas queria mais, queria saber onde morava, o que fazia antes e depois do trabalho, quantos anos tinha, o que esperava do futuro, por que trabalhava em uma lanchonete quando poderia figurar nos grandes outdoors espalhados pela cidade, enfim, tantas perguntas e quase nenhuma coragem para dar um passo na direção de concretizar meus questionamentos. Na verdade, convidá-la para um café poderia soar de forma muito sarcástica e tão nervoso sempre estava eu que não conseguia pensar em outra abordagem.
Enfim, num final de tarde de outono, ao pagar a conta e sair deixei um papel sobre o balcão dizendo rapidamente que era para ela. Ela não entendeu prontamente, fato atestado pelo olhar confuso que ela lançou sobre o pequeno pedaço de papel e depois para mim, que já vestia o casaco e ia levantando.
Eu havia escrito no papel o número do meu telefone e uma pequena mensagem que dizia “se for de seu interesse, ligue”. Foi o melhor que consegui fazer e confesso que tive mais desesperanças do que efetivamente imaginei lograr sucesso na empreitada. Mas nem bem cheguei ao estacionamento e o telefone tocou. Não atendi. Apenas sorri como uma criança ao ganhar o tão esperado presente de natal.
Após algumas horas retornei a ligação. Sem o peso da responsabilidade do labor e sem a minha angústia e desassossego a conversa fluiu de forma muito agradável. Acabamos nos encontrando algumas vezes, não para um café, é claro, mas para jantares, filmes regados com muita pipoca, ou apenas para conversar olhando para o lago da cidade iluminado nas noites frias do outono que já havia se transformado em inverno. Apesar de breve, foi um relacionamento intenso, a ponto de gerar ciúmes e carências, que somente eram acalmadas por visitas inesperadas e longas noites de carícias.
Eu obtive a maioria das respostas que eu queria, inclusive a tão perturbadora pergunta sobre seu futuro. Descobri que apesar do amplo horizonte que ela podia avistar, do imenso território inexplorado que estava à sua espera, ela desejava apenas uma vida simples, uma vida de sonhos talvez. Confesso ter ficado um pouco desapontado com essa aceitação que ela carregava, mas sei que ela tinha os motivos pessoais suficientemente válidos para isso. Foi mais ou menos nessa época que as ligações começaram a cessar, os encontros foram ficando cada vez mais raros. Eu estava com novos projetos e estava viajando mais do que o normal, fato que me obrigou a quebrar a rotina de cafés no final da tarde. Quando, após certo tempo, resolvi tentar um novo contato, acabei por descobrir que ela havia conhecido uma pessoa legal, que as coisas estavam indo bem e que pensavam em casar, construir uma pequena casa, talvez terminar a faculdade antes de ter os filhos. Enfim, a vida simples que ela desejava e que a fazia feliz. Eu apenas acreditava, e aceitava.
Encontrá-la novamente depois de alguns anos foi, no mínimo, incrivelmente surpreendente. Era a tarde de um sábado, eu estava distraído, lia um livro à sombra de uma árvore naquele mesmo lago de outrora e havia desviado o olhar da leitura para imaginar uma cena há pouco lida quando ela apareceu. Eu reconheceria aquele sorriso à milhas de distância. Ela ainda tinha o mesmo jeito de andar, o mesmo corte de cabelo. Veio andando em minha direção e ao chegar próximo de onde eu estava usou o mesmo velho cumprimento de antigamente: – Oi, guri! Como está? – sorrimos. Nos abraçamos fortemente por longos segundos. Sentamos. Conversamos por algumas horas. Havia muita coisa para ser dita, muitos fatos e histórias, boas, ruins, engraçadas, tristes. Lembranças, estórias.
Entre os detalhes que, logicamente deveriam presentes dado o contexto, percebi que ela não usava nenhum anel no dedo anelar em nenhuma das mãos, mas não tínhamos até então tocado nos assuntos sobre relacionamentos a não ser o que nós mesmos vivemos naquela época fria de 2002. No fundo eu sabia que se perguntasse a ela algo do gênero, após ela dar a resposta e contar suas histórias, iria devolver a mesma pergunta, iria me obrigar a mexer em lembranças que tentava com muito esforço esconder, esquecer, apagar. Preferi acreditar que ela se esquecera de colocar o anel no dedo antes de sair pois era zelosa e não corria riscos de estragá-lo com detergente para louças, por exemplo, por isso tinha tirado, ou então não gostava de caminhar com o sol refletindo a todo o instante no dourado brilhante.
Mas o temido momento chegou. Naqueles instantes em que as novidades todas parecem ter acabado e impera o silêncio por alguns segundos. Ela então desviou o olhar para o nada, respirou fundo. Suspirou. Um suspiro pesado. Quando seu olhar voltou para a realidade, percebi que estava pesado, urgente por algo que não consegui decifrar. Ela mostrou-me então uma pequena cicatriz em seu pulso, escondida sob uma pulseira colorida. Novamente não entendi. Perguntei então o que havia ocorrido. O que se seguiu a partir dali foi um relato perturbador. Estar viva naquele momento, sentar-se à beira do lago que tanto gostava, reencontrar um velho amigo, tudo era uma conquista sem tamanho. Ela praticamente renascera após o grave acidente que vitimou fatalmente o seu noivo. Eu não sabia se a interrompia, se deixava que ela adentrasse cada vez mais nos detalhes, no corpo quebrado sobre o asfalto, no olhar sobre o outro mundo, no fato de ter voltado, nas inúmeras cirurgias, nas cicatrizes que ainda ficaram por seus braços e pernas mesmo após muitas horas de correções. Porém, a perplexidade tomou conta de mim quando finalmente dei-me conta de que, apesar de todas as marcas que ela carregava pelo corpo, sua face estava perfeita, imaculada, sem arranhões, ou cicatrizes. Nada, absolutamente nada, como se o tempo tivesse parado desde a última vez que a vi na escada, na despedida.
Estava me sentindo culpado. Duplamente. Culpado por não ter perguntado nada. Culpado por tê-la deixado tocar no assunto. Culpado por saber disso só agora, agora que ela já estava bem. Culpado por pensar que poderia nunca mais vê-la e que estar ali, naquele fim de tarde ao seu lado, era uma benção. Uma benção que talvez eu não merecesse, apesar de estar acontecendo, ser real. Culpado por não saber o que dizer, não saber se era sensato e humano questioná-la sobre a falta que sentia de seu noivo, e se realmente sentia falta. Por um minuto desejei que aquilo tudo fosse mentira, que não havia distância, nem tempo, nem separação, nem mortes, apenas o reencontro. Apenas um encontro de quem no dia anterior esteve junto.
Confesso que tive vontade de beijá-la como nunca antes beijei. Como uma forma de agradecimento por ela ainda estar viva, talvez, apesar de que não coube a ela tal decisão. Agradecer por ela existir naquele momento. Agradecer por ela, novamente, ter cruzado o meu caminho.
O sol ia se pondo atrás de nós. Reflexos multicoloridos no lago à nossa frente. Alguns poucos transeuntes despercebidos com seus fones de ouvido e suas conversas triviais. Ela toma minha atenção novamente: – Não foi como você. Nunca foi tão bom como com você.
E lá estávamos nós: ela com as cicatrizes na pele, eu com as cicatrizes na alma.